Que livro você levaria para uma ilha deserta?
O Livro da Solidão
Cecília Meireles
Vêm os que acreditam em exemplos célebres e dizem naturalmente: “Uma história de Napoleão.” (…) Os que nunca tiveram tempo para fazer leituras grandes, pensam em obras de muitos volumes – e lembram-se das Vidas de Plutarco, dos Ensaios de Montaigne, da obra completa de Pasteur, de Goethe, de Dostoiévski, de Ibsen. Ou na Bíblia. Ou nas Mil e uma noites.
Pois eu creio que todos esses livros, embora esplêndidos, acabariam fatigando; e, se Deus me concedesse a mercê de morar numa ilha deserta (deserta, mas com relativo conforto, está claro – poltronas, chá, luz elétrica, ar-condicionado), o que levava comigo era um Dicionário. Dicionário de qualquer língua, até com algumas folhas soltas; mas um Dicionário.
Não sei se muita gente haverá reparado nisso — mas o Dicionário é um dos livros mais poéticos, se não mesmo o mais poético dos livros. O Dicionário tem dentro de si o Universo completo. (…)
Eu levaria o Dicionário para a ilha deserta. O tempo passaria docemente, enquanto eu passeasse por entre nomes conhecidos e desconhecidos, nomes, sementes e pensamentos e sementes das flores de retórica.