Pablo Vilela

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Qual as Lavadeiras

In Outras Revisões on 29 de junho de 2007 at 12:27 am

Certa feita, em entrevista concedida no ano de 1948, o escritor e revisor falou, com a genialidade que lhe era peculiar:

Qual as lavadeiras

Graciliano Ramos (revisor)

Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxaguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar.

Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.

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Revisores, Celebrem

In Dia a Dia do Revisor on 27 de junho de 2007 at 3:18 pm

Na última madrugada, o maior fórum de discussão sobre revisão de textos completou três anos de vida: a comunidade Revisores, do orkut, cuja moderação tive a honra de herdar do amigo Thiago Martins.

Nesses três anos, são cerca de 2 mil tópicos, criados, comentados e assistidos por nossos quase 3 mil membros. Nesses três anos, muita informação, troca de experiências e a formação de uma grande rede de contatos.

O principal mérito da Revisores, no entanto, é acabar, enfim, com o crônico mal de nossa profissão: aquela infindável angústia por sentir que estamos sozinhos no mundo. Não estamos. Somos centenas, milhares, discutindo diariamente tudo o que se refere à revisão de textos.

Somos todos bem-vindos. Estamos todos de parabéns.

Aumentando

In Cadê o Revisor? on 24 de junho de 2007 at 9:05 pm

Festa junina seguida de aniversário, não tem jeito: cachorro-quente, pé-de-moleque, algodão-doce (todos com hífen), canjica de amendoim com coco (sem acento).

Depois da comilança, é hora de cuidar da saúde e da estética, certo? Errado! Nesta clínica, a ordem é sempre aumentar: aumento de glúteos, celulite, rugas, acne, cicatrizes e até aumento de obesidade.

gluteos.jpg

Se perguntarem lá Cadê o Revisor?, provavelmente dirão, injustamente, que está curtindo seu aniversário.

Epitáfio

In Outras Revisões on 22 de junho de 2007 at 12:00 am

Esta poesia faz parte da minha mais nova aquisição, o fantástico A paixão pelos livros. Escrita por Franklin, não foi parar em sua lápide, o que é uma pena, mas é só vocês não contarem esse pormenor a ninguém.

Epitáfio

Benjamin Franklin

livro-vida.jpgAqui
O corpo
de
Benjamin Franklin, Impressor
(como a capa de um velho livro,
com seu conteúdo rasgado,
desbotados seus títulos e dourações)
jaz alimento para os vermes.
No entanto a obra não se perderá
Pois irá (como ele acreditava) reaparecer
Em uma nova
E mais bela edição,
Revista e corrigida
Pelo Autor.

Erro de Digitação

In Cadê o Revisor? on 20 de junho de 2007 at 1:40 am

calheiros.jpgRenan Calheiros alega erro de digitação em recibos

O presidente do Senado apresentou a senadores documentos que, segundo ele, comprovam que houve erro de digitação em recibos na venda de gado, o que derrubaria a acusação de duplicidade de cheques nos documentos.

Sou capaz de jurar que ouvi um senador de oposição gritar, lá do fundo: Cadê o Revisor?

Alunos

In Dia a Dia do Revisor on 18 de junho de 2007 at 12:30 am

alunos.jpg

Vocês que são professores (os que não são imaginem) tentem se lembrar do rosto de seus alunos no primeiro dia de aula: apreensivos, sedentos por informações, conhecimentos, uma pitada de angústia, sem saber o que os espera, sem saber o que podem esperar.

Lembrem-se desses rostos se transformando a cada conhecimento adquirido, a cada debate, a cada experiência compartilhada.

Emocionam-me cerca de quarenta dedicados rostos buscando, a todo custo, saber mais sobre revisão.

Antes do Nome

In Outras Revisões on 16 de junho de 2007 at 1:56 am

Antes do nome

Adélia Prado

Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o “de”, o “aliás”,
o “o”, o “porém” e o “que”, esta incompreensível
muleta que me apóia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infreqüentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.

Sobre Namorados

In Preciosidades on 15 de junho de 2007 at 2:35 am

Num dia como esse, não há troca de presentes mais doce. A rosa e o livro, a delicadeza e as palavras. Especialmente entre aqueles que carregam o amor no nome.

Cássia Pires

Buchstabieren Sie, Bitte

In Dia a Dia do Revisor on 13 de junho de 2007 at 3:02 am

Pastor AlemãoDeu nos noticiários:

O ganhador do último BBB foi intimado: ou aprende logo a falar direito, ou está fora da programação global. Ele, que não é bobobo, já está em busca de um professor de português. Já falei que, por meio milhão, eu dou umas aulinhas para ele.

Dia dos Namorados

In Dia a Dia do Revisor on 12 de junho de 2007 at 2:13 am

Dizem que, em algum lugar da Espanha (quiçá em Barcelona, e nosso amigo Edu H, que uma hora dessas está visitando um dos estranhos monumentos de lá, poderá confirmar essa história), no Dia dos Namorados, o homem dá uma rosa (e só uma, claro) a sua amada. A namorada, em contrapartida, dá um livro a seu amado. Nada mais oportuno.

A língua agradece.

Erro de Português

In Outras Revisões on 8 de junho de 2007 at 3:54 am

Erro de português

Oswald de Andrade

Quando o português chegou

Debaixo de uma bruta chuva

Vestiu o índio

Que pena!

Fosse uma manhã de sol

O índio tinha despido

O português.

Além-Mar

In Dia a Dia do Revisor on 6 de junho de 2007 at 2:44 am

Emocionei-me ontem com a visita e conseqüente comentário de um estudante de língua portuguesa que nasceu e vive logo ali, em Estocolmo, na Suécia.

Já não é nosso primeiro visitante internacional. Temos sempre conosco a Ulrike, que nos fala, sempre com muita simpatia, desde a Alemanha.

Não foi um só o motivo que me fez emocionar: primeiro, visitas de tão longe já são, por si sós, uma honra imensa; segundo, ver que há pessoas interessadas (e preocupadas, como vemos no comentário do Kurt) por nosso idioma renova nossas esperanças de tê-lo bem cuidado por muito tempo; além disso, a discussão despertada é de extrema atualidade e remete-nos ao acordo que tanto repelimos, provando que o assunto está na boca do mundo.

Enternece-me ver a língua portuguesa tratada com tanto respeito e carinho por quem está assim tão longe. Que nos sirva de exemplo.

Nominalização

In Dica do Mês on 3 de junho de 2007 at 3:59 am

A obstacularização da utilização de uma exageração na nominalização como auxiliação na estilização da redação é a caracterização de uma horrorização da manifestação da expressão, ou seja, o problema de nominalizar é que o texto fica horrível.

Vale uma observação: todas as palavras são baseadas em fatos reais.

Como um Romance

In Outras Revisões on 1 de junho de 2007 at 7:40 pm

como-um-romance.jpg

O título da obra é péssimo, mas ela merece ser muito bem digerida.

Como um Romance

Daniel Pennac

O verbo ler não suporta o imperativo. Aversão que partilha com alguns outros: o verbo “amar”… o verbo “sonhar”… Bem, é sempre possível tentar, é claro. Vamos lá: “Me ame!” “Sonhe!” “Leia!” “Leia logo, que diabo, eu estou mandando você ler!”

— Vá para o seu quarto e leia!

Resultado?

Nulo.