Pablo Vilela

Prós para Poucos

In Eis o Revisor on 4 de janeiro de 2010 at 9:40 am

O acordo ortográfico aniversaria. Você já se adaptou a ele, mas ele é bom para você? O revisor e escritor Raul Drewnick responde à revista Com Ciência.

Como o acordo repercutiu em suas atividades e no meio editorial livreiro?

Ter certa idade (eufemismo para velhice) traz algumas vantagens. Uma delas, no meu caso, é essa de nenhuma reforma ortográfica ter mais o poder de me amedrontar. Passei por muitas (…) e, quando surge mais uma, eu a encaro com naturalidade. Nada mais daquele temor que tive quando enfrentei a primeira: Decifra-me ou te devoro. Esta recente deve ter, como sempre, sido bem recebida pelo meio editorial livreiro, especialmente pelas editoras que publicam livros didáticos. Novas edições, novas vendas. Pelos autores em geral, acredito, pelas manifestações que ouvi, que ela seja mais malquista do que bem-vinda. Eu, que, além de tentar diligentemente ser um escritor, sou revisor e sustentei, por muito tempo, minha família porque havia gente disposta a acreditar no meu talento para colocar vírgulas e crases, não tenho queixas. Meu trabalho aumentou.

As primeiras conceituações dessa nova ortografia datam de 1990. Estamos, oficialmente, na transição 2009-2012. Que haja essa transição de quatro anos é compreensível, mas até ela foram duas décadas. O que explicaria essa demora?

Irei para o inferno, certamente, mas acho que, nesta época de comunicação rapidíssima, com a possibilidade de e-mails, videoconferências e tudo mais, se esses modernos recursos não foram utilizados, alguma má-língua (o acordo respeitou este hífen, aleluia!) pode sugerir que as demoras nessa área se devem à necessidade de os donos da língua se reunirem várias vezes, e jantarem, e pernoitarem em bons hotéis e mostrarem como estão empenhados em defender nossa língua e em aprimorá-la.

Pela sua experiência, a nova ortografia, até sua completa assimilação, causa desconforto aos escritores?

Não acredito que os escritores venham a ter problemas, a não ser a vontade, que essas reformas geralmente provocam, de buscar os mais expressivos palavrões para saudá-las. Eu (…) fiquei particularmente tentado a mandar para todos os diabos quem tirou o hífen da expressão dia-a-dia (a palavra mais querida e mais essencial para quem faz crônicas). Dá vontade de xingar, quando se nota que avanços conquistados durante décadas foram varridos com uma vassourada só. (…) Antes do acordo, se eu escrevesse que fui à-toa, logo o leitor entenderia que fui um sujeito reles, desprezível. E se eu escrevesse que fui à toa, significava que andei meio sem rumo. Hoje, pela nova ortografia, tiraram o hífen, ficou só uma forma para o adjetivo e para o advérbio, para os dois significados: à toa. Quem vai lá saber se sou um sujeito reles ou se sou simplesmente uma pessoa que gosta de vagar por aí?

Houve, então, quebra de unidade semântica?

Houve um retrocesso nessa questão. Quando se formava uma nova unidade semântica, costumava-se utilizar o hífen, para assinalar a diferença. Pé de moleque, sem hífen, não era, salvo casos de aberração, coisa que se pudesse achar uma delícia. Já pé-de-moleque… Hoje o Volp registra só uma forma, para os dois casos. Precisarei recorrer a outro doce…

A Microsoft anunciou que já tem o corretor ortográfico adaptado à reforma. A função do revisor estaria ameaçada a longo prazo?

Cuidado com os corretores ortográficos de processadores de texto, pois muitas vezes apresentam soluções absurdas. O revisor já praticamente não tem lugar em jornais. Em revistas, a situação é um pouco melhor. Nas editoras (estou falando das melhores), haverá sempre lugar para o revisor, e seu trabalho não se limita a essas insignificâncias ligadas a um hífen que cai ou a um acento que é suprimido. O revisor checa nomes próprios; verifica fluência, coerência, coesão, repetição de palavras. O bom revisor hoje é quase um subeditor.

O novo Volp foi lançado em março. Cinco meses depois foi revisto e ampliado. A ortografia nota 10 é uma utopia para um léxico de quase 400 mil palavras?

Todas as reformas foram e continuarão sendo assim. Sai a edição tão esperada e, já no dia seguinte, começam a se ouvir discordâncias entre especialistas, que acabam resultando em novas edições. No caso de dicionários e vocabulários, acho que deveria haver, por parte de quem os edita, a disposição de dar ao leitor que vai comprar a segunda edição a possibilidade de, devolvendo a primeira, ter um desconto expressivo. Posso parecer terrorista, mas talvez fosse o caso até de os órgãos de defesa do consumidor entrarem nisso, se, pouquíssimos meses depois de publicada, uma edição for substancialmente alterada. Quanto à propalada riqueza do idioma, se você pegar qualquer dicionário, ficará espantado ao ver que quase todas as palavras registradas se referem a pássaros e árvores, cada qual com uma dezena de grafias (…). Baixar a bola, então, é preciso.

Conhece algum caso de alteração comandada pela reforma que interfere no conteúdo de um título de livro?

Um livro de poemas de Alice Ruiz, editado em 1984, tem o título Pelos pêlos (preposição e substantivo). Esse título hoje, a meu ver, ficaria enigmaticamente Pelos pelos; no entanto, a posição final, se gosta ou não, é do autor.*

* Consultada, Alice Ruiz informou que achou interessante, na reedição do livro, criar a ambiguidade.

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  1. Reformas ortográficas sempre geram um ti-ti-ti/tititi (como se escreve isso, ó Deus, com ou sem reforma??). Me adaptei, por força do trabalho, e não tenho muito a reclamar. Caso contrário, estaria teimando numa ortografia que já foi “inovadora” um dia. Quase um conflito de gerações, sobre o qual nao vale a pena discutir muito (aqui no BR, pelo menos).

    De resto, adoro Raul Drewnick. E ele foi no ponto em vários aspectos. Adorei esse: “Nas editoras (estou falando das melhores), haverá sempre lugar para o revisor, e seu trabalho não se limita a essas insignificâncias ligadas a um hífen que cai ou a um acento que é suprimido. O revisor checa nomes próprios; verifica fluência, coerência, coesão, repetição de palavras. O bom revisor hoje é quase um subeditor.”

    Confesso que botar crase e ajeitar acento é algo meio sem graça. É o que estou fazendo no momento. Dá um sono…

  2. O pior é que tititi virou ti-ti-ti. Horrível. Eu também brigo pouco com a reforma, Leticia. Critico, xingo, mas não nos resta senão nos adaptarmos e torcer para que o próximo demore mais de 20 anos.

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