Pablo Vilela

Sem Preconceito Linguístico

In Dia a Dia do Revisor on 31 de março de 2010 at 11:41 pm

Eu erro. Erro e admito. Sou redundante, pleonástico. Cometo barbarismo, tabuísmo, neologismo, plebeísmo, solecismo. Engulo o esse do plural.

Falo errado, consciente e sem vergonha. Sem preconceito. Sem medo de confessar que erro. Sem inventar disfarce para a palavra erro.

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  1. Pablo,
    o problema é a carga semântica e ideológica da palavra erro. Se partimos do pressuposto do erro é porque há o certo. Mas esses dois conceitos dependem do ponto de vista. Assim como dizer que alguém que veste uma roupa azul com um cachecol laranjado é brega, ou errado, ou feio. Entendeu?
    Tudo pode ser relativizado, inclusive o uso da língua.
    Mas gostei do seu texto.
    Beijo pra ti.

  2. Mas existe também o certo. O certo é o que está dentro de determinado padrão. Assim como existe certo e errado em qualquer regra, em qualquer lei, em qualquer ciência, não haveria de ser diferente com a língua (que é regra, que é lei, que é ciência).

  3. Seria o caos, se assim não fosse, não é Pablo? Eu concordo com você.

    E eu não acho que dê para comparar o uso uma roupa com o uso da
    língua.

    Beijos! 😉

  4. Não. Não dá para comparar o uso de roupa com o uso da língua. Mesmo! Vocês têm razão. E justamente por isso não existe língua certa e língua errada. Existe uso inserido em contextos. Como cientista da língua, devo discordar, Pablo, de sua visão de certo e errado em termos de língua. Existem os desvios do padrão, que todos nós cometemos. Todos. Mas um padrão, em termos linguísticos, depende de contextos. Por exemplo: o padrão linguístico da fala de determinadas comunidades rurais do Brasil é usar o r retroflexo, aquele de algumas cidades do interior paulista, mineiro,goiano, matogrossense, paranaense. E se alguém não o utiliza é uma pista para aquelas pessoas de que aquele falante não é daquela comunidade. O padrão linguístico de escrita de Leis e Projetos de Lei é determinado por modelos prescritos em documentos oficiais para que quem quer que venha a ter contato com aquele espécime de texto o reconheça como tal. Por outro lado, temos a norma padrão que é uma norma idealizada. As pesquisas linguísticas mostram que praticamente NINGUÉM no Brasil fala ou escreve a tal norma padrão. Quero tomar a liberdade de indicar o livro Nós cheguemu na escola, e agora?, da profa. Stella Maris Bortoni, da UnB. Leia especialmente o capítulo 4 desse livro. Essa é uma discussão de que gosto muito porque temos a oportunidade de mostrar que se faz pesquisa com língua assim como se pesquisam as plantas, os bichos, o clima, as máquinas.

    Abraço [socio]linguístico

  5. Ah, e isso não é disfarce para a palavra erro. É uma maneira científica de encarar os fatos. Cientista não julga. Cientista analisa os fatos como eles são para explicá-los.

    😉

  6. Conheço a professora Stella Maris Bortoni-Ricardo e estou inteirado de sua argumentação. Debati muito esse tema com ela.
    De fato, Carol, o cliente exige que o revisor identifique seus erros. Não importa o nome que se queira dar ao erro internamente. Para o cliente o nome do erro é erro mesmo. Você tem razão, o que é erro em um contexto é acerto em outro. E há até erros propositais para que o texto se adapte a determinado contexto.

  7. Acredito que não devamos ter preconceito com as falas regionais, mas em matéria de escrita a relativização torna-se um problema. Temos um caso recente, em que livros distribuídos pelo governo (editados não lembro onde) chegaram ao Rio de Janeiro com um linguajar que, para as crianças cariocas, remetiam a um conceito sexual.

    Me parece que o texto do post assume seus erros, como todos nós deveríamos fazer, sem maiores fantasias “explicatórias”. E, no fim, me parece um mea-culpa, assumindo que erra. De onde se deduz que existe o certo. Podemos até discutir a complexidade extremada do português, mas isso não é motivo para descambar para o outro lado e fazer uma festa do caqui de linguajares, errados ou não, autênticos ou não. Corremos o risco de o país virar uma Torre de Babel.

  8. É justamente esse meu receio, Leticia. Erramos todos. Muitas vezes o erro é proposital e até adequado. Tudo depende da circunstância. O fato é que, para administrar corretamente o erro, devemos conhecer profundamente o certo.

  9. Erro, equívoco, engano, não acerto… enfim, as palavras proferidas são vivas, pode-se voltar atrás, porém o dito, foi dito… pobre daquele que que cuida a forma que outros falam, aplicam a gramática na fala, leis e regras no ato instantâneo, de uma sinapse cerebral…
    “nóis ‘erra’ mais se cumunica”… Marcos Bagno que o diga.

  10. Se a causa for nobre, Sidinei, e a forma de corrigir for simpática, não vejo objeção para a correção. Cria-se até uma boa oportunidade para o debate linguístico.

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